Curtinhos

Eu, Ele e Ela

Eu acordei com o farfalhar das cortinas e a fraca luz da manhã. Minha cabeça explodia em dor e confusão, um gosto ácido em minha boca desidratada e uma náusea que fazia meu corpo inteiro tremer.

Ao abrir os olhos, enxergava como através de uma janela embaçada. Ele, adormecido, o peito subindo e descendo com o compasso de uma discreta respiração. Ela, envolta nos braços dele, a cabeça apoiada em seu peito, a mão a repousar próxima, e no rosto um sorriso adormecido. O lençol os envolvia. Eu jazia na beirada da cama, nua, descoberta, descobrindo.

A última coisa de que me lembrava era da taça de vinho. Das risadas… não. Lembrava-me também de estar nos braços dele, depois, e do perfume dela. E então acordei.

Aquilo tinha sido uma infeliz ideia. Mas o que deu errado? O que aconteceu? Eu não tinha bebido mais que duas taças de vinho…

Eu Ele e Ela (2)

Sem me atrever a me mexer, trocava de ordem as cenas que se acendiam em minha mente, numa tentativa de dar sentido a tudo. Abri a porta para ela. Ele esperava na sala. Cumprimentos. A garrafa de vinho aberta, três taças. Palavras, risadas, carícias. Deixei a sala com ele por um momento, a acertar os últimos detalhes. Um beijo. Voltei, ele ao meu lado. O ritmo se alterou, a porta do quarto se abriu. Eu, ele. O perfume dela. E tudo se apagou.

Então liguei as cenas, os cheiros, os olhares. A impensável mas real conclusão não tardou a vir, como um tapa ardido num rosto quente e despreparado: não foi o vinho o culpado. Foi ela.

Eu me sentia uma estranha em minha própria cama. Ela não era mais minha. Nada daquilo era meu. Nem ele. Tudo tinha acontecido ao meu lado, enquanto eu assistia adormecida, nua e esquecida. Enquanto eu jazia entorpecida.

Carregando o peso da minha dor, levantei e arrastei-me silenciosamente até o banheiro. Com mãos trêmulas, tranquei o pesadelo do outro lado da porta; abri o chuveiro. A água quente molhou, mas não aliviou.

Mais de uma hora se passou antes que eu reunisse coragem para retornar ao quarto, agora banhada, mas não menos humilhada. Ela não estava lá. Ele já tomara o café. Com ela, suponho. Além de tudo, até o desjejum ela se atrevera a me furtar.

O que aconteceu, perguntei a ele; você dormiu, ele respondeu. Sua face era fria e distante, sinais de satisfação e uma contraditória vergonha atravessaram-lhe. O que aconteceu então, perguntei novamente, já adivinhando a resposta. Você adormeceu, ela continuou acordada, me respondeu. E eu já sabia o que tudo significava. Eu não dormi, lhe disse, foi ela. Ele não compreendeu. Ou não quis.

Ela nunca tivera a intenção de seguir o plano… naquele breve instante de ausência, ela escorregara algo pra mim, algo pra ele. Eu deveria sair de cena, e enquanto abandonada na coxia, ele teria sua performance até o cerrar das cortinas. Ela seguia seu próprio roteiro, dirigindo e atuando.

Ele não me deu razão; era despeito, ciúme, frustração. E naquele instante eterno de abandono, eu desejei que o veneno que ela me dera tivesse sido o suficiente.

Naquela noite não existiu “nós”. Naquela manhã tive certeza de que nunca mais existiria. Aquele breve e novo relacionamento não aceitava plurais. Havia somente eu, ele e ela.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s